O Lúpulo Brasileiro

 

Nove anos atrás recebi de um amigo, sementes de lúpulo e resolvi semeá-las. Após alguns meses, das cerca de 30 sementes, 20 acabaram germinando, e fiz o transplante das bandejas de semeadura para sacolas plásticas e ficaram no viveiro por mais um ano. Fiz então um novo transplante para vasos maiores e comecei uma avaliação dentro de uma estufa, com varais de arames para que as plantas, trepadeiras, começassem a subir. Mais um ano de observação e consegui que boa parte delas produzissem flores. As plantas de lúpulo possuem flores masculinas e femininas separadamente (plantas dioicas), ou seja, plantas macho e plantas fêmeas. Sabe-se que para o uso na indústria cervejeira, só se utilizam inflorescências femininas. Desta forma das 20 que germinaram, separei cerca de oito vasos, de plantas fêmeas.

As plantas obtidas por sementes são indivíduos únicos, diferentes entre si, pois seu genótipo é altamente heterogêneo, ou seja, cada planta germinada é uma variedade, não correspondendo nem mesmo com seus progenitores. 

Assim, depois de dois anos de avaliação obtivemos oito variedades de lúpulo, cada uma com uma carga genética diferente. Na mesma estufa, continuei avaliando por mais um ano para verificar qual planta era a mais produtiva. Eis que consegui entre as oito, uma que se destacou. Havia, portanto, feito uma seleção massal, e conseguido uma variedade bastante produtiva. Até aí tudo muito bem, foi quando no quarto ano decidi descartar o material que se mostrou pouco produtivo num “bota-fora” que tenho onde vão parar os resíduos vegetais e outros descartes orgânicos e plantei a muda selecionada no ambiente externo, sem estufa para avaliar seu desempenho nas condições ambientais normais da Mantiqueira.

 

No quinto ano, a variedade que havia se mostrado surpreendente na estufa, foi um fiasco nas condições reais... Não suportou as chuvas e se desintegrou com doenças e nem chegou a produzir sequer uma flor. Já estava conformado com o insucesso do experimento. Pensei comigo: realmente Lúpulo não é para o Brasil.

 

Dois anos depois, num verão chuvoso, quando nem mais pensava neste projeto, ao passar aleatoriamente pelo “bota-fora” me deparei com uma enorme moita de Lúpulo, produzindo de forma absurda, flores ricas em lupulina (pó amarelo que contém as substâncias desejáveis para a cerveja), e o que mais me espantou, debaixo de uma chuva de 15 dias.

 

A natureza é assim. Quando você menos espera, te surpreende. Esta “nova” variedade que fora descartada, por não ser muito produtiva na estufa, se desenvolveu por entre os resíduos, e veio com uma genética que suportava as chuvas, produzindo cones (flores) de qualidade.

 

No oitavo ano, fizemos um plantio de 1000 metros quadrados de clones propagados do rizoma desta variedade e durante o processo de desenvolvimento das plantas fizemos uma parceria com o grupo Brasil Kirin, donos da marca Baden Baden, e fornecemos uma quantidade pequena da safra do Lúpulo Brasileiro, que entraram na composição da cerveja comemorativa dos 15 anos da marca. A cerveja foi um sucesso, ficou realmente muito especial, e neste ano, nove anos depois, estamos plantando 01 hectare (10.000 m2) com este mesmo clone, para desenvolvermos um grande projeto de desenvolvimento. O Brasil importa 100% do Lúpulo usado na fabricação de cervejas, e é o terceiro maior produtor de cervejas mundial e o maior importador mundial deste ingrediente...